Compartilhar.

Olá amigo(a) leitor(a) do Portal dos Pássaros! Deixe-me apresentar: sou Rodrigo Guerra, biólogo especialista em aves e criador de pássaros domésticos. Este é o primeiro artigo de nossa coluna aqui no Portal. E iniciaremos com uma viagem através da história natural de um dos pássaros mais criados do mundo: o canário do reino.

Antes de qualquer coisa, o que vem a ser história natural de uma espécie? Seria a reunião das informações inerentes aos estudos sobre uma determinada espécie, envolvendo dados acerca de sua biologia (características físicas, classificação zoológica, reprodução, evolução, distribuição geográfica, etc) e sua ecologia trófica e comportamental.

Então, a espécie em destaque neste artigo é o famoso canário do reino, também chamado de canário belga ou canário doméstico, em função da longa história de criação em ambiente doméstico, sendo criado em praticamente todos os continentes (exceção da Antártida).

É um animal pertencente à Classe Aves, Ordem Passeriformes (é um passarinho), Família Fringillidae e nome científico Serinus canarius. A Figura 01 representa um cladograma parcial da Ordem Passeriformes, onde se podem ver as relações filogenéticas entre algumas famílias de pássaros desta ordem. O que isto representa? Nada mais é do que a relação de parentesco entre tais famílias, isto é, quanto mais próximas as famílias estão, mais próximas geneticamente elas são. Convém lembrar que, as separações entre famílias podem ter ocorrido entre milhares a milhões (o mais provável) anos atrás.

Figura 01. Cladograma parcial da Ordem Passeriformes, demonstrando as relações filogenéticas entre algumas Famílias.
Adaptado de Ericson & Johansson (2003).

Então, com base nesta figura, fica claro que a Família Fringillidae é mais próxima filogeneticamente à Família Passeridae. No Quadro 01, encontram-se algumas espécies de pássaros que pertencem às Famílias mencionadas na Figura 01. O que concluímos? Fora as espécies pertencentes à mesma Família Fringilidae, o canário do reino (Serinus canarius) é muito mais aparentado ao pardal (Passer domesticus) do que ao próprio canário da terra (Sicalis flaveola), que por sua vez é mais aparentado com o curió (Sporophila angolensis).

Já dentro da Família Fringilidae, de todas as espécies apresentadas no Quadro 01, que possuem nível de parentesco diferenciado com o canário do reino, a espécie popularmente chamada de chamariz (Serinus serinus) a mais próxima geneticamente (espécie irmã).

Quadro 01. Exemplo de espécies de pássaros pertencentes às Famílias apresentadas na Figura 01.

Espécie Família
Canário do reino (Serinus canarius) Fringillidae
Chamariz (Serinus serinus) Fringillidae
Pintassilgo da Venezuela (Sporagra cucullatus) Fringillidae
Pintassilgo (Sporagra magellanicus) Fringillidae
Pintassilgo português (Carduelis carduelis) Fringillidae
Canário de Moçambique ou Bigodinho africano (Crithagra mozambicus) Fringillidae
Don fafe (Pyrrhula pyrrhula) Fringillidae
Gaturamo verdadeiro (Euphonia violacea) Fringillidae
Pardal (Passer domesticus) Passeridae
Canário da terra (Sicalis flaveola) Emberizidae
Canário tipio (Sicalis luteola) Emberizidae
Coleiro (Sporophila caerulescens) Emberizidae
Curió (Sporophila angolensis) Emberizidae
Tangará cinzento (Tangara sayaca) Thraupidae
Tiê sangue (Ramphocelus bresilius) Thraupidae
Mariquita (Setophaga pitiayumi) Parulidae
Melro ou Pássaro preto (Gnorimopsar chopi) Icteridae

 

O canário do reino é nativo dos Arquipélagos das Canárias, Açores e Madeira (Costa Noroeste da África) (Figura 02), tendo relatos de sua introdução nas Bermudas e Havaí. É um pássaro de aproximadamente 12 cm de comprimento, cuja cor silvestre ou ancestral é composta por três pigmentos: eumelanina negra, pheomelanina e carotenóide (lipocromo) amarelo. A combinação dos três pigmentos resulta em uma cor esverdeada (lembrando um verde nevado de má qualidade, em termos de concurso), onde nos machos é mais viva do que nas fêmeas. Inclusive, com o passar dos anos, os machos vão ficando cada vez mais amarelados.

Figura 02. Mapa de distribuição geográfica natural do Canário do Reino (Serinus canarius) ancestral ou selvagem.
Fonte: BirdLife International and NatureServe (2014).

Vive em uma variedade de ecossistemas, sendo muito comum em áreas semi-abertas com pequenas árvores como pomares e bosques. Também é encontrado em habitats artificiais, como parques e jardins. Alimenta-se principalmente de sementes, mas também de brotos, brotos verdes, um pequeno número de artrópodes e frutas, especialmente figos maduros que são suas iguarias favoritas.

Trata-se de uma espécie monogâmica, cuja reprodução ocorre entre os meses de janeiro a julho. As fêmeas realizam posturas de 03 a 04 ovos, postos em ninhos confeccionados em forma de taça em ramificações de galhos de arbustos.           Com status de conservação pouco preocupante e com uma população selvagem estável, a espécie é considerada um dos símbolos naturais do governo das Ilhas Canárias, portanto, trata-se de uma espécie protegida por lei.

Mas por que do nome canário? Pois bem, esta magnífica ave foi descoberta pelos europeus, mas precisamente pelos espanhóis, nas Ilhas Canárias, daí, receberem o nome canário. Logo, a ave tem o nome das ilhas e não o inverso. Mas de onde se originou o nome canário?

Bom, este arquipélago ganhou o nome canário, dos romanos ao batizarem de Canariae insulae, ou seja, ilhas dos cães em latim. Por quê? Pelo fato da presença de enormes cães nas ilhas. Tais cães, provavelmente, deram origem à raça denominada Presa canário. Logo, o nome canário é uma corruptela da palavra canis, que significa cão.

Mas qual motivo de nós aqui no Brasil chamarmos este pássaro de canário do reino ou canário belga? No Brasil, o Serinus canarius chegou à época colonial, em navios com bandeiras de Portugal e da Bélgica, daí nós aqui, conhecermos estas aves respectivamente como canários do reino ou canários belgas.

Mas aí o amigo leitor pode está se perguntando: “e o tal canário da terra?” Sim, realmente existe o canário da terra, pássaro silvestre que habita a América do Sul em países como Brasil, Venezuela, Peru dentre outros. Seu nome científico é Sicalis flaveola, e como demonstrado na Figura 01, nem parente dos Serinus eles são.

Ele recebeu o nome vulgar de canário em virtude de, mesmo sem serem parentes, ambos os canários são semelhantes e ao chegarem os Serinus canarius, os portugueses descobriram que aqui também tinha uma ave bem parecida, ou seja, um canário. Como este não veio de navios belgas ou portugueses, foram chamados de canários da terra, isto é, canários oriundos da própria terra: Brasil!

Bem, se os canários do reino e da terra não são parentes, por que eles são parecidos? Na natureza existe algo chamado seleção natural, que por meio de fatores que interferem na sobrevivência dos seres vivos e sua reprodução, fazem com que suas proles vão se direcionando para certos caminhos evolutivos, seja para atrair mais parceiros, seja para se camuflarem melhor e não serem predados. Mas espera aí, processos evolutivos? Sim, a famosa Teoria da Evolução de Charles Darwin! Então, se animais não aparentados estão vivendo sob condições ou pressões seletivas semelhantes, mesmo vivendo em continentes separados, podem evoluir para formas também semelhantes. É o que se chama na biologia de convergência evolutiva. Um exemplo bom para isto é o caso de golfinhos se assemelharem a tubarões.

Voltando aos canários, ambas as espécies são reproduzidas em vários países por criadores que selecionam os indivíduos em função de canto, cor ou forma. Creio que o canário da terra seja a espécie de passarinho silvestre nativo que possui a maior quantidade de mutações cromáticas em cativeiro. Um fato importantíssimo é lembrar que na legislação brasileira, somente os canários do reino (Serinus canarius) são considerados animais domésticos, como periquitos australianos, diamantes mandarins, cães e gatos. A criação dos canários da terra (Sicalis flaveola) só pode ser feita com o registro junto aos órgãos ambientais estaduais, sendo considerado crime ambiental sua manutenção em cativeiro sem a devida autorização.

Bem amigo leitor e criador, espero que o texto tenha sido interessante, acerca da biologia e ecologia dos canários que vivem nas Ilhas Canárias e, também, elucidado a questão do por que se tem o canário belga, ou do reino, e o canário da terra. E toda a explicação dada anteriormente também justifica o fato dos criadores conseguirem hibridar o canário do reino com os pintassilgos (mesma Família Fringillidae) e ser quase (para mim, totalmente) impossível se hibridar os dois canários entre si (Famílias diferentes e afastadas filogeneticamente), produzindo o lendário canarol.

Na segunda parte deste artigo sobre a História Natural do Canário do Reino, viajaremos pela história de sua domesticação, o surgimento e fixação das diversas mutações cromáticas, de forma, tamanho e até canto.

Um grande abraço e até a próxima!

O que achou da postagem? Deixe seu comentário.

Compartilhar.

Sobre o autor

Biólogo especialista em aves (ornitólogo), com atuação em pesquisa, ensino, extensão e consultoria voltadas às ciências naturais, principalmente no tocante à fauna em áreas urbanas, unidades de conservação e jardins zoológicos. Proprietário e Responsável Técnico do Criadouro RGC – Pássaros (Pássaros Domésticos).