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Olá amigo(a) leitor(a) do Portal dos Pássaros,

Estamos juntos mais uma vez, continuando nossa viagem pela história natural do canário do reino. Neste artigo, viajaremos pela história de sua domesticação, o surgimento e fixação das diversas mutações cromáticas.

A espécie foi descoberta em 1402, nas Ilhas Canárias e, em 1478, já se tem registro dos espanhóis capturando indivíduos para manutenção em ambiente doméstico. Como o interesse primordial pela espécie estava por conta de sua vocalização (canto), somente os machos eram vendidos para os demais países da Europa, proporcionando desta maneira um monopólio espanhol sobre a espécie.

Entretanto, em 1664 (praticamente duzentos anos depois) o domínio hispânico foi interrompido, pois os canários foram introduzidos acidentalmente na Ilha de Elba (Itália) em virtude de um naufrágio espanhol contendo um carregamento de aves.

Somente em 1709, tem-se o registro histórico da primeira publicação voltada aos canários, onde se apontava a presença de 29 cores diferentes, entre canelas, brancos (dominantes) e amarelos, além dos variegados e intensos. Deve-se a Jean-Claude Hervieux de Chanteloup (1683-1747) a autoria desta publicação, intitulada “Traité Curieux du Serin de Canarie”.

A criação em ambiente doméstico proporcionou a fixação de mutações que foram surgindo na espécie. Lembrando que tais mutações ocorrem de forma aleatória e se faz necessário um árduo trabalho dos criadores para a fixação destes novos fenótipos (aparências) de interesse. Apesar do registro das variações em sua coloração, o canto e a forma tinham o maior interesse na seleção dos canários, já criados amplamente em ambiente doméstico.

Devem-se aos britânicos a imensa dedicação às diferentes formas e tamanhos dos canários, originando-se diversas raças de canários. Já no continente europeu, apesar do desenvolvimento de novas formas, a seleção do canto tinha maior vulto entre os criadores.

A criação e seleção de linhagens dedicadas somente à coloração dos canários só iniciou plenamente no início do século XX, com o surgimento e fixação de novas mutações cromáticas e, melhoramento das já existentes. O Quadro 01 contém todas as mutações cromáticas existentes para a espécie, juntamente com o local, ano de origem e sua herança genética.

Quadro 01. Listas das mutações cromáticas existentes no canário doméstico, com informações sobre o local e ano de origem, além de sua herança genética.

Você deve estar se perguntando: “hum, estão faltando cores aí nesta lista, correto?” Sim, estão faltando a cor isabelino, o fator vermelho, a categoria mosaico e a cor jaspe. Sabe o por quê? Elas não são mutações ocorridas naturalmente nos canários do reino. Vejamos uma a uma:

  • Cor isabelino: não é uma mutação, mas a combinação gênica entre as mutações canela e ágata, graças ao processo genético denominado crossing-over. Ou seja, ao se acasalar um canela com um ágata, nascem aves negras, onde os machos são portadores de canela e ágata. Durante a formação de seus gametas (espermatozóides), uma reconfiguração do seu DNA proporciona o nascimento de fêmeas que serão ágatas e canelas ao mesmo tempo. Como seria o fenótipo de um ágata-canela? É o isabelino!
  • Fator vermelho: oriundo da hibridação com o pintassilgo da Venezuela (Spinus cuculattus), cuja presença do lipocromo vermelho é natural da espécie. Portanto, a partir de certos híbridos férteis, o lipocromo vermelho foi transferido do pintassilgo para o canário.
  • Categoria mosaico: oriundo da mesma hibridação mencionada anteriormente. Nos pintassilgos, há existência de dimorfismo sexual nas cores de machos e fêmeas. Portanto, a deposição de lipocromo de forma diferenciada entre machos e fêmeas também foi repassada dos pintassilgos para os canários.
  • Cor jaspe: outra cor cuja origem veio da hibridação dos canários com a espécie de pintassilgo de cabeça preta (Spinus magellanicus), original do território brasileiro. As espécies de pintassilgos já criadas em ambiente doméstico, apresentam uma mutação diluidora de melaninas, com herança genética autossômica com dominância parcial, ou seja, animais homozigotos são muito mais diluídos do que os heterozigotos. Por meio de alguns híbridos férteis, esta mutação foi transferida aos canários do reino dando origem a cor que chamados de jaspe.

Segundo o Anuário Oficial Informativo da Federação Ornitológica do Brasil (FOB)/Ordem Brasileira de Juízes de Ornitologia (OBJO) de 2017, existem 590 cores aceitas de canários do reino ou domésticos (divididas em 65 séries – Quadro 02), oriundas das combinações das diversas mutações e cores anteriormente descritas. Tais cores vão do nome mais simples (exemplo: branco) até outros mais complexos (exemplo: canela jaspe amarelo marfim mosaico macho) em virtude da combinação de mutações e cores em uma mesma ave. Salienta-se que a mutação Mogno e algumas novas cores envolvendo os isabelinos não constam nas informações do quadro a seguir, pois só comporão oficialmente a nomenclatura a partir de 2018.

Quadro 02. Séries de cores da nomenclatura oficial para os canários de cor, segundo o Anuário 2017 da FOB/OBJO.

Uau, quantas séries e obviamente, quantas cores! Recomendo você a ler a nomenclatura completa, com as cores detalhadas dentro das séries acima expostas, no site da OBJO (http://www.objo.org.br). Neste mesmo site tem links para fotografias destas cores e aproveite 2018 para visitar as diversas exposições de canários espalhadas pelos estados e o Campeonato Brasileiro de Ornitologia em Itatiba-SP, para ver in loco estas magnifícas e coloridas aves.

Vamos parar por aqui e na terceira parte deste artigo veremos as raças de canários de porte (mutações em forma, tamanho e postura) e de canto.

Um grande abraço e até a próxima!

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Sobre o autor

Biólogo especialista em aves (ornitólogo), com atuação em pesquisa, ensino, extensão e consultoria voltadas às ciências naturais, principalmente no tocante à fauna em áreas urbanas, unidades de conservação e jardins zoológicos. Proprietário e Responsável Técnico do Criadouro RGC – Pássaros (Pássaros Domésticos).

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