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Ao longo de minha vida como criador de pássaros – mais de 30 anos limpando gaiolas – identifiquei três tipos de pessoas dedicadas a essa atividade, que eu entendo como paixão. Primeiro, aqueles que se encantam com o colorido e a delicadeza das plumagens ou que se sentem seduzidos
pelo canto dessas pequenas criaturas e querem tê-las sempre por perto.
Em seguida, alinham-se os idealistas, que vêm na criação dos pássaros mais do que um simples passatempo. Assumem o desafio de melhoramento da espécie através de estudos, de pesquisas, cercando-se de padrões sofisticados de criação. Investem toda a sua capacidade de trabalho e também capital, ressarcindo-se parcialmente com a venda de um ou outro exemplar.
Melhoram e variam as cores, definem as penas e como verdadeiros cirurgiões plásticos da natureza corrigem os olhos, acertam os bicos e embelezam as pernas. Para tanto, transformam o seu criatório, não sei bem, se num salão de beleza ou laboratório científico. Depois, em gaiolas tecnicamente planejadas, cercadas de conforto, luxo e segurança levam as suas verdadeiras obras de arte ao vivo e a cores para exibir nos concursos nacionais e internacionais para a avaliação e reconhecimento do seu trabalho.


Finalmente, temos o criador, que eu poderia identificar como profissional, que também é devotado à causa dos pássaros, mas coloca entre seus objetivos o interesse financeiro. Como nada se faz sem dinheiro e como cada ação desenvolvida corresponde a um custo, ele concorre para fazer girar o mundo ornitologico. Compra, vende, cria, promove eventos, participa e prestigia o estudo, a pesquisa e está sempre atento às conquistas do setor.
Esse tipo de criador também é participante ativo dos congressos e campeonatos, onde ele expõe e tanto vende como compra os pássaros de outros criadores, para enriquecimento do seu plantel.
Todos esses criadores, diferenciados pelas propostas e objetivos, juntam-se numa mesma legião de protetores das aves e da natureza. Foi e é nas suas mãos que dezenas de aves frágeis e desprotegidas, vítimas fáceis de predadores e caçadores, conseguiram sobreviver até as gerações atuais.
É dentro desse segmento marcado pelo idealismo, que surgiu um novo movimento na ornitologia brasileira, de resgate e reconhecimento de um pequeno pássaro chamado manon.

Com todo o respeito, o manon está nas criações de pássaros, como o garçon na Santa Ceia – só para servir. É a ama-seca da passarada, é a babá dedicada dos filhotes. Passa o ano todo, com exceção de um pequeno período, na troca de penas, chocando os ovos de celebridades, como os calafates, diamantes de gould, mandarins e outros pássaros exóticos. Não é nem bonito, não tem as cores vivas e apaixonantes de outras aves e o seu canto não passa num concurso de calouros. Por isso não tem mercado, é um pássaro barato.
Ainda há pouco vi um anúncio – 50 manons por 250 reais. Com esse dinheiro mal dá para comprar um calafate bom.
Conta a lenda que o manon não tem sequer família, não tem pai e nem  mãe. É de proveta, conforme expressão popular antiga. Foi inventado e criado pelo homem, assim como o Pinóquio, que surgiu das mãos milagrosas do carpinteiro Gepeto.


Felizmente, essa história de manon apenas serviçal, de manonzinho inexpressivo, vendido a preço de banana nas lojas do ramo, já faz parte do passado. Hoje, o manon não é mais aquela ave apenas chocadeira, mãe dedicada de todos os filhotes. É um pássaro que assumiu uma identidade, tem
tamanho, tem desenho, tem cores próprias. Ganhou o status de ave de concurso. Até já saiu vencedor, competindo com parceiros de elite.
Das mãos mágicas desses obstinados criadores de pássaros, vem surgindo aos poucos, desde a última década do século passado, um novo manon, a partir de exemplares mais desenvolvidos, importados da Europa. Um manon com desenho próprio, com cores variadas – canela, moka, pérola e linha cinza – e gerando filhotes já com orgulho de ser manon.
Essa transformação, que já dura cerca de 20 anos, foi trabalhosa, exigiu muita dedicação e pesquisa. Foi um desafio assumido pelos criadores, quase um compromisso de retribuir aos manons todo o serviço e dedicação por eles despendidos no processo de desenvolvimento e aprimoramento de outras
raças. O manon mereceu essa atenção. Merece mais! Merece o Clube do Manon, que é uma nova proposta dos criadores de pássaros. Uma proposta que ainda vem sendo trabalhada e burilada, antes de ser concretizada e difundida no mundo dos passarinheiros. Vale a pena aguardar!

Por: Cesar Ramon Del Rio (consagrado criador de pássaros exóticos, com prêmio nacionais e internacionais) e Sérgio Coelho de Oliveira (jornalista e historiador)

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Sobre o autor

Cria pássaros exóticos desde 1986. Tetracampeão Brasileiro de Exóticos. Campeão Mundial dos dois Hemisférios (norte e sul). Diversas vezes campeão do troféu eficiência do campeonato Brasileiro de ornitologia. Campeão em diversos grupos no segmento de exóticos.

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