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Há algumas semanas, a convite do amigo  Cesar Del Rio, passarinheiro de prestígio nacional, fomos visitar a exposição de pássaros do Campeonato Nacional, realizado pela Federação de Ornitologia Brasileira, na cidade de Itatiba. Dois imensos pavilhões, recheados de gaiolas e viveiros, com quase 24 mil pássaros de todas cores, portes, originários das mais diversas partes do mundo. Só de canários, mais de  20 mil exemplares de centenas de mutações, cores, penas e portes diferentes. Vejam bem, canários do reino. Um deles me chamou a atenção – alto, bem alto, magérrimo, todo torto e desengonçado. Soube depois que aquela coisa não era defeito, era uma raça – Giraldillo sevillano “la nueva raza espanhola”.

Em volta das gaiolas circulava uma multidão de curiosos, compradores, vendedores e mesmo criadores se deliciando com a visão de suas criaturas premiadas. Folhetos, cartazes, fotografias, banners e propagandas de remédios, de ração e de gaiolas, se derramavam pelo piso impecável daqueles galpões do evento. Publicações, revistas e jornais, se misturavam nesse festival de pássaros.

Umas dessas publicações, muito bonita por sinal, ganhava destaque. Era a revista PLUMAS, editada na Argentina, mas voltada para a ornitologia da América Latina. Num artigo que se referia a algumas aves ameaçadas de extinção, a minha atenção foi despertada para um pássaro em especial: MACÁ TOBIANO. Senti que aquele nome TOBIANO não me era estranho. Aliás, bem familiar, ou melhor bem sorocabano. Lembrava o nome do nosso ilustre conterrâneo, Brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar, que emprestou o seu nome aos muares (burros e mulas) malhados. Atualmente, a pelagem tobiana também aparece nas características de algumas raças de cavalos, como a raça americana Paint Horse.

Fui a fundo para saber mais sobre o pássaro tobiano. O Google me ajudou: o nome científico, Podiceps gallardoi em homenagem aos seus descobridores, Angel Gallardo e seu neto José Maria Gallardo, em 1974, na Patagônia Argentina, Província de Santa Cruz. Alguns registros de suas presenças também foram anotados na Patagônia Chilena. Por sua plumagem “blanquinegra”, muito bonita e atraente, ganhou o apelido de TOBIANO como os cavalos e muares malhados.

Como se previa, o Dicionário da Língua Portuguesa, edição de 1859, não apresenta o verbete tobiano. Já o Diccionario Encyclopedico da Lingua Portuguesa, edição de 1926 traz o seguinte registro: “Tobiano – adj. (Brasil, RGS) raça de cavalos que tem manchas brancas espalhadas pelo pello escuro”.


Qual é a origem do verbete tobiano?

Eu sempre soube que o nome de tobiano dado aos burros e mulas pampas se deve ao fato do sorocabano brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar ser um apaixonado por burros, mulas, cavalos malhados, etc. No Rio Grande do Sul corre a mesma informação, acrescida de dois detalhes; primeiro é que o Brigadeiro, quando fugiu para o Rio Grane do Sul, em 1842, perseguido pelos soldados de Caxias, montava uma mula pampa, que passou a ser apelidada de tobiana. Outras fontes asseguram que o Brigadeiro, além de gostar desse tipo de animal, dedicava-se a sua criação nas suas fazendas no caminho das tropas.

O historiador José Aleixo Irmão em seu livro “Rafael Tobias de Aguiar, o Homem, o Político” assim descreve a fuga do Brigadeiro perseguido pelos soldados de Caxias, após a Revolução Liberal de 1842 “Finda a cerimônia (de casamento), logo no dia seguinte, cedo, no meio da tristeza, entre abraços chorosos, Tobias monta o seu valoroso tobiano e parte para o sul…”
Aluisio de Almeida, historiador sorocabano, pioneiro na pesquisa do tropeirismo no Brasil e biógrafo do Brigadeiro Tobias, fez um aprofundado estudo sobre as mulas tobianas, consultando dezenas de especialistas do Brasil todo e da América Latina, certificando-se a partir daí que a palavra tobiana tem origem nos animais muares e cavalares de Brigadeiro Tobias. Cita em seus estudos o vocabulário Rioplatense, que assim se refere ao verbete TUBIANO. “dicese del caballo o jegue, que tiene manchas muy extendidas e notables en el cuerpo. De um revolucionário de la Província de São Paulo en el Brasil, conocido vulgarmente por Tubias, quien, derrotado em 1842, passó a incorporar-se con los riograndenses, montados, el e sus pocos soldados que le acompañaram em cavalos de la casta y pielio indicados en la definicion. Lhamaram tubianos, denominación que se generalizó despues en nel Rio de la plata”.

Os bens do sorocabano Brigadeiro Tobias foram arrolados em dois documentos importantes; o primeiro, quando do sequestro dos seus bens por liderar o movimento revolucionário de 1842 e depois na elaboração do seu testamento. Nesses documentos aparecem os cavalos e burros pampas, que estavam entre as suas preferências. Para não ser muito extenso vamos citar apenas algumas das dezenas de fazendas do brigadeiro, o que basta para provar o seu interesse por esse tipo de animal.
Fazenda São Pedro – 4 cavalos pampas e 6 éguas pampas.
Fazenda São Rafael – 3 cavalos brancos, 53 éguas pampas e 2 burros pastores (reprodutores) pampas.
Na Fazenda Itapetininga, o testamenteiro não detalhou os animais, cita apenas 832 éguas e 22 pastores, entre outros.

 

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Sobre o autor

Jornalista, com passagem pelos jornais de Sorocaba, "O Estado de São Paulo" e Revista Globo Rural em seus 50 anos de atividade profissional. Atualmente dedica-se à pesquisa histórica na região de Sorocaba. É autor de 8 livros.

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